sábado, 16 de outubro de 2010

« AQUILINO RIBEIRO: REVOLUCIONÁRIO e ESCRITOR da MONTANHA »

AQUILINO RIBEIRO
Escritor
(1885-1963)


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Aquilino Ribeiro nasce a 13 de Setembro de 1885 em Carregal de Tabosa, concelho de Sernancelhe. Aos dez anos, vai residir com os pais para Soutosa, onde faz a instrução primária. Transita depois para Lamego e Viseu, onde chega a frequentar o seminário, abandonando-o por falta de vocação.

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Em 1906 muda-se para Lisboa e, em pleno período de agitação republicana, começa a escrever os primeiros artigos em jornais.

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Em 1907, devido à explosão de uma bomba, é preso. Mas consegue evadir-se e, entre 1908 e 1914, divide a sua residência entre Paris e Berlim.

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Em 1914, com a eclosão da I Grande Guerra, volta a Portugal. Em 1918 publica o primeiro romance, " Via Sinuosa", que dedica à memória do seu pai, Joaquim Francisco Ribeiro.

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A convite de Raul Proença, entra em 1919 para a Biblioteca Nacional. A partir desse ano, escreve incessantemente: "Terras do Demo" (1919), "O Romance da Raposa" (1924), "Andam Faunos Pelos Bosques" (1926), "A Batalha Sem Fim" (1931) e muitos outros títulos.

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Envolvido em revoltas contra a ditadura militar, no Porto e em Viseu, exila-se por duas (1927 e 1928) vezes em Paris, onde casa pela segunda vez (a primeira mulher falecera).

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A partir de 1935 o seu labor literário torna-se mais fecundo: "Volfrâmio" (1944), "O Arcanjo Negro" (1947), "O Malhadinhas" (1949), "A Casa Grande de Romarigães" (1957), "Quando os Lobos Uivam" (1958), este último apreendido pela censura e pretexto para um processo em tribunal.

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Entretanto, viaja: Brasil, Londres, Paris. Em 1963, durante as comemorações do 50° aniversário do seu primeiro livro, promovidas pela Sociedade Portuguesa de Escritores, então presidida por Ferreira de Castro - adoece inesperadamente.

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Morre a 7 de Maio de 1963, no Hospital da CUF, com 78 anos.



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MESTRE Aquilino Ribeiro, nos finais dos anos 40, deixou a sua casa da beira-mar, na Cruz Quebrada - 'arredores' de Lisboa -, para morar nas Avenidas Novas.
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Passou a viver na cidade! Homem da serra, vizinho do vento e das núvens, não se deveria encafuar naqueles paredões de cimento armado com persianas, que é o estilo «caixoteano» lisboeta. A casa, batida de sol, rasgada de janelas amplas, por onde respirava, num terceiro andar, dominava o horizonte.
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Mestre Aquilino, um símbolo da nossa literatura. Antes dele, só Camilo Castelo Branco trabalhou tanto, porfiadamente, numa fecundidade de génio. Toda a sua obra constitui um verdadeiro monumento da literatura contemporânea. Quem lê os seus livros, adivinha o homem: forte, sadio, de largas passadas e, impetuoso, que gesticulava e trabalhava como um gigante!
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A sua pena nunca tinha fadiga, nem dias feriados. Não conheceu férias, mesmo as burguesas férias de qualquer trabalhador. No Verão, dava uma saltada à sua Beira. Aí, a vida multiplicava-se de novas actividades. O escritor vivia e compartilhava da alegria da terra. Trepava à serra, perdia-se nos vales onde as cigarras sempre cantaram preguiçosamente.
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Viram-no de tamancos nos pés, de testeiras de feno e capucha na cabeça, ajudando nos penosos trabalhos da lavoura, enchendo cestos das vindimas, seguindo o caminho fecundo do arado. Aí, onde a família lhe tinha deixado uma linda casa, com capela estilo barroco, Aquilino escreveu alguns dos seus mais belos livros. E trabalhava de qualquer maneira, escrevendo ao correr da pena, deixando algumas páginas sem uma ligeira emenda, com o poder de um criador que, de jacto, cria beleza.
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Aquilino tinha uma extraordinária capacidade de adaptação!
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Muitos anos viveu em Paris, como acima já disse, viajou e conheceu mundo. Trocou as botas da serra pelos sapatos parisienses. Porém, nunca deixou de ser o escritor enamorado das fragas, pleno de cor, enchendo a nossa literatura da mais luminosa prosa, como pintor de um mundo de beleza.
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Apesar de 'referenciado' pelo regime salazarista, a sua gigantesca estatura intelectual impressionou o ditador ao ponto de, este recomendar aos seus serviços censores para não lhe apreenderem as obras, ou o asfixiarem muito com os controles policiais.
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Salazar deixou escrita esta frase: «É um inimigo do Regime. Dirá mal de mim; mas não importa: é um grande Escritor».
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Aquilino foi um homem moderno. Escreveu os seus romances à máquina, velozmente, como qualquer correspondente comercial.
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Aproveitava as manhãs para trabalhar, continuamente; e isto sem horário, porque um escritor não pode limitar burocraticamente o seu labor. A obra aquiliana era um rio... que não parava nunca!
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Gostava de viajar e de passear. Em família, ouvia rádio e lia muito. Acompanhava os estudos dos filhos e envolvia-se nas matérias que aprendiam, por vezes em pleno gabinete de trabalho que era uma verdadeira montanha de livros e manuscritos! Faz-me lembrar Teófilo de Braga, que também parecia desorganizado, submerso de livros e documentos.
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Da parte da tarde, nunca faltava à sua tertúlia na Livraria "Bertrand", onde se reuniam artistas e escritores, um verdadeiro cenáculo em pleno Chiado. E... mesmo aí, Aquilino nunca deixou de estar em actividade: Dava uma ideia, apresentava um alvitre, acedia a uma entrevista.
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Aquilino Ribeiro, mesmo sozinho era... a personificação da Literatura!


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Homem da montanha
e
cinzelador da língua pátria


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5 comentários:

Swt disse...

Sempre achei Aquilino Ribeiro um escritor difícil. Muito bom, porém difícil.
Muitas décadas depois, António Lobo Antunes e Mia Couto levam a Língua Portuguesa a uma dimensão oposta,
Mas, pessoalmente, até gosto de Aquilino Ribeiro e é notável a sua participação nas revoltas republicanas!

César Ramos disse...

Swt,

Quem havia de dizer que este homem de semblante grave e calmo, foi um activista bombista nas actividades da Carbonária, à qual pertenceu.
Do seu contributo, resultou a vitória da República.

Luisa disse...

César,
Belíssimo post!

Não sendo um escritor fácil, li toda a sua obra com um prazer desmedido. Há quem eleja "Casa Grande de Romarigães" como a sua melhor obra.
Foi um grande republicano.

Tem um bom domingo

Beijinhos

César Ramos disse...

Luísa,

Obrigado pelo imerecido elogio, pois muita coisa de maior expressão poderia ter focado e não o fiz.
Aquilino merecia que eu postasse uma coisa melhor, na medida em que escritor difícil ou não, fez parte da multidão de grandes autores que tive de estudar em Literatura, ainda no Liceu.

Na m/época de estudante/puto, não podia achar Aquilino difícil, pois a nota negativa seria implacável!

Miguel Torga, figura literária de uma clareza de escrita tão grande que se torna por vezes um caso sério de interpretação (as 'negas' a que assisti, com textos dos Bichos!), foi outro autor que 'devorámos', para não sermos nós os devorados.

A exigência do corpo docente nestes autores percebe-se, porque na m/época ainda eram vivos e, além do aspecto literário actual, representavam um exemplo de cidadania "a olho nu"!

Um bom domingo para ti também
Beijinhos

César Ramos disse...

Maria,

Deve haver alguma 'areia na engrenagem' blogosférica, para não conseguir aqui entrar para comentar.

Mas estou atento e pronto a responder em qualquer "divisão", desta casa de três assoalhadas: Alfobre, MUNHO e Munho do Alfobre.

É obra ter 3 blogues? Foi um vírus que há tempos deu temporariamente cabo de um, e, por teimosia, não desisti e em vez de 1, passei a ter 3!
É até poder...

Obrigado por ler e comentar.

Até sempre...
Cumpts.
César